Eu vinha pela AL -101 Norte, depois do carnaval, quando fui ultrapassado velozmente por uma caminhonete do tipo “sou autoridade em Alagoas”. No vidro de trás do veículo, um imenso adesivo com números e a frase: “Honestamente, nunca se matou tanto em Alagoas”. E não há como refutar o que ali está escrito: a violência, com tantas vítimas, assusta a todos os alagoanos, mesmo os que conseguem enxergam além do que dizem os tais números.
Mas, “ironia atroz que o senso humano irrita”, no mesmo carro estava colado o adesivo de um personagem da política local identificado com o crime de mando, modalidade na qual somos “campeões brasileiros” – no dizer do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal.
O tal slogan vem sendo exaustivamente divulgado pelo Sindicato dos Policiais Civis e carrega um tanto de injustiça com a própria categoria que representa. Afinal, os agentes da PC são parte responsável no combate à mortalidade desenfreada. O problema, no caso, é quando o slogan-denúncia passa a ter utilização política e/ou partidária por quem não pode exatamente falar em Paz (assim mesmo, com maiúscula).
Apontar, então, a responsabilidade por tal quadro como sendo dos delegados Paulo Rubim e Marcílio Barenco – emblemáticos personagens -, aí a questão se torna ainda mais suspeita. Ambos, o que é notório, não têm qualquer relação com os criminosos locais. Ao contrário, deles só recebem uma carga diária de ódio.
O mais importante: atribuir à (in) Segurança Pública o crescimento espantoso dos homicídios em Alagoas é não enxergar um palmo adiante do nariz. Estamos colhendo os frutos da árvore que plantamos e cuidamos ao longo de décadas: a falta de políticas pública de moradia, educação, saúde, assistência social, a ausência de Justiça – em todos os níveis -, enfim, é o conjunto da obra que deve responder pela cruel realidade.
Se é entre os jovens, principalmente, que cresce essa violência mais visível – potencializada pelas drogas –, o caminho que tempos de trilhar vai muito além da necessidade óbvia de aumentar o policiamento nas ruas: o crime é iníquo e ubíquo; a polícia, não.
Quanto ao tal personagem, dono do carrão adesivado, fiquei a me perguntar: qual terá sido a contribuição dele para os números que exibia como sendo o seu mais indignado protesto? Que ele não seja modesto na resposta.